Uma banana velha com manchas escuras na casca.Ela chamava aquilo de merenda? Explodo, queria um lanche de verdade!
Estava farta daquela vida mais ou menos. Jogo a banana pela janela, pego meu celular, ponho o fone de ouvido e saio para esfriar a cabeça. Deixando para trás uma mãe chorosa.
Os livros diante dela pareciam a encarar, mas ela não conseguia entender o que eles queriam dizer. Era uma analfabeta.
Vago pela rua sem destino por um certo tempo até me lembrar do que fazia antes de sair de casa.
O rendimento minimo para ser aprovado em escolas particulares era um pouco maior. Precisava estudar. Cobrei-me, fazendo o caminho de volta para casa quando aquela visão me paralisa.
Não acredito no que vejo, não daquela maneira.
Crianças, gatos, cachorros, disputam palmo a palmo restos de comida, jogado momentos antes no lixo por um comerciante local.
Involuntariamente as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e quando caio em si, já estou engasgada com meu próprio choro.
O que seria daquelas crianças no futuro? Aquelas crianças teriam um futuro? Ou morreriam a minguá diante dos olhos hipócritas e individualistas da sociedade que as rodeava?
Percebo do que minha mãe havia me livrado e sinto um arrependimento por te-la tratado tão mau.
O puxão na barra do meu vestido faz com que eu me assuste.
Era uma daquelas crianças, suas mãos estavam um pouco feridas, suas roupas estavam rasgadas e seu cabelo apresentava sinais de que não eram lavados a um bom tempo. Não conseguia distinguir sequer se era um menino ou uma menina.
Na realidade não conseguia encara-la, via naquele rosto o retrato mais cruel da realidade. Não estava pronta para aquilo.
- Não chora não moça. - Pedia com uma doçura na voz.
Sorri, incrédula. Era estranho ouvir aquele pedido partir de alguém que tinha tantos motivos para chorar.
Ela ouviu o meu silêncio e continuou:
- Olha, hoje eu achei uma coisa, algum idiota jogou fora. Não sei bem o porque, ela esta ótima, e eu vou dar ela pra você ta? Só me prometa que vai parar de chorar. - Exigiu.
Concordei, me rendendo aquela simpatia.
Então ela enfiou a mão no bolso e estendeu para mim uma banana, velha e com manchas pretas. Como ele havia reparado muito bem eu era uma idiota.
Fico perplexa diante de um gesto tão nobre, agradeço-o e dispenso o presente. Por constatar que ele precisa mais do que eu.
Desejo que aquele criança um dia encontre uma mãe analfabeta que lhe de livros e bananas, enquanto corro para casa aflita. Precisava me redimir com alguém.